- Venho para ter bebé mas tenho de dizer uma coisa...
- Diga.
- Não posso ficar com o bebé. Já tenho três em casa e nem a esses posso alimentar.
Fiquei a olhar para ela, como se me tivessem dado um murro no estômago, tentando manter um ar profissional e evitando deixar que algum preconceito me toldasse a razão.
- Vamos observar e depois falamos novamente.
- Não quero que ninguém saiba que vim ter o bebé - pediu- preciso de sair o mais depressa possível
- Por nós ninguém saberá- estava a ficar preocupada. Com quem ficaram as outras crianças?
- Ficaram a dormir, ao cuidado de uma vizinha que não sabe que eu estou grávida.
- Certo. De manhã, antes de sair, fale com a assistente social e deixe os documentos todos assinados para que o bebé não tenha de passar anos à espera de legalizar a situação para ser adoptado - sentia-me triste com toda aquela situação mas, por outro lado, admirava aquela mãe que parecia querer dar um futuro melhor àquele filho que carregava na barriga mas não podia criar.
Ao exame foi detectado que tinha a dilatação quase completa pelo que passou para a sala de expulsivo. Meia dúzia de puxos, sem gritos ou dramas e o bebé nasceu. 3,300 . Bonito e, aparentemente, saudável.
-Não o quero ver- disse ela no meio da excitação geral que sempre rodeia um parto bem sucedido. Retirei o bebé para outra sala onde foi limpo e vestido. No final, quando o bebé estava para ser entregue no serviço onde aguardaria que o seu futuro fosse decidido a minha colega, que estava revoltada com toda aquela situação, pegou no bebé e foi mostrá-lo à mãe, que virou a cara.
- Olhe que é o seu filho nascido da sua barriga. Sangue do seu sangue, carne da sua carne. A mãe, então, tocou-lhe e disse emocionada:
- Deus te abençoe e que tenhas um futuro melhor do que aquele que eu te posso dar. Peguei no bebé. Havia lágrimas nos olhos de todos os técnicos que tinham estado presentes naquele parto.
Às cinco da manhã a mulher, que tinha acabado de ser mãe, desapareceu da maternidade como se nunca lá tivesse estado.